Demência e Doença de Alzheimer

Entrevista

Dr. Antônio Eduardo Damin – Médico Neurologista, com especialização em Neurologia Cognitiva e Comportamental pelo HC-FMUSP

1. Quais são as causas de demência em geral e da Doença de Alzheimer (DA)?

Demência não é doença específica, e sim uma síndrome, ou seja, um conjunto de sinais e de sintomas que podem estar associados a várias causas, sendo a doença de Alzheimer a mais comum. Assim, demência é definida como uma síndrome que se caracteriza pelo declínio de funções intelectuais superiores (como: memória, linguagem, orientação, atenção, dentre outras) de gravidade suficiente para interferir nas atividades profissionais ou sociais do indivíduo acometido. Estudos realizados em vários países, incluindo o Brasil, mostram que um pouco mais da metade de todos os casos de demência é causado pela doença de Alzheimer, ou seja, ela é a principal causa de demências. No entanto, há dezenas de outras doenças que podem ocasionar uma demência, dentre as mais comuns estão a demência vascular, a demência frontotemporal, a demência com corpos de Lewy, a demência na doença de Parkinson, dentre outras. Cada uma delas possui particularidades na apresentação dos sinais e dos sintomas e nas alterações encontradas nos exames laboratoriais e de imagem, no entanto, por vezes, a diferenciação entre as diferentes causas de demência pode ser difícil.

2. Alzheimer é um tipo de demência?

Sim, a doença de Alzheimer é a causa mais comum de demência. Em geral, dividimos a doença de Alzheimer em dois tipos: doença de Alzheimer pré-senil, quando afeta indivíduos com menos de 65 anos de idade, e doença de Alzheimer senil, quando afeta indivíduos com mais de 65 anos, sendo esta forma a mais comum.

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7. Quais profissionais estão envolvidos com o tratamento da doença de Alzheimer?

A abordagem e o tratamento da doença de Alzheimer são multidisciplinares, ou seja, o tratamento adequado envolve vários profissionais. Os profissionais envolvidos no tratamento, no diagnóstico e no cuidado dos pacientes com DA são: médicos (em geral, neurologistas, psiquiatras e geriatras), fisioterapeutas, profissionais de enfermagem, fonoaudiólogas, psicólogas, terapeutas ocupacionais, dentre outros. O papel do cuidador, seja ele um parente ou um profissional contratado, é fundamental para a coordenação do tratamento entre os vários profissionais envolvidos, nos cuidados com alimentação, no uso de medicamentos, nos cuidados de higiene, dentre outros, já que o paciente, muitas vezes, é dependente ou tem dificuldades para o autocuidado ou de relatar suas próprias dificuldades, sendo que, na maioria das vezes, as informações obtidas pelos profissionais de saúde são oriundas dos cuidadores/familiares.

 8. Quais as abordagens terapêuticas mais comuns para tratar a doença de Alzheimer?

O tratamento da doença de Alzheimer se divide em tratamento farmacológico e não farmacológico, que inclui reabilitação da memória, intervenção com familiares, fisioterapia, fonoaudiologia, terapia ocupacional, dentre outros. O tratamento farmacológico específico da DA é realizado por duas classes de medicamentos: Anticolinesterásicos (atualmente há três substâncias usadas na prática clínica: galantamina, donepezila e rivastigmina) e Antagonista glutamatérgico (a memantina é a única substância aprovada nesta classe de medicamentos para o tratamento da doença de Alzheimer nas fases moderada à grave). Os estudos mostram que a memantina é eficaz na melhora dos sintomas cognitivos e comportamentais, além de agir diminuindo a velocidade de progressão da doença. Além do tratamento específico, comumente se empregam antidepressivos para transtornos de humor e antipsicóticos atípicos no manejo de quadros de agitação, agressividade, alucinações e delírios.

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9. Outras doenças podem acelerar ou determinar o aparecimento da doença de Alzheimer?

Algumas doenças ou alterações podem influenciar na manifestação da doença de Alzheimer. A associação mais bem estabelecida é a doença cerebrovascular. Alguns estudos mostram que a doença cerebrovascular pode se associar com uma evolução mais precoce e rápida da doença de Alzheimer e com sintomas mais intensos. Além disso, outras doenças influenciam no cotidiano de pacientes com demências. A ocorrência de infecção urinária em pacientes com DA pode gerar um quadro comportamental com agitação, delírios e/ou alucinações. Alterações laboratoriais, como descompensação da diabetes, aumento ou baixa de cálcio ou sódio, hipotireoidismo, deficiência de vitamina B12, dentre outras alterações, podem piorar os sintomas da doença de Alzheimer e recomenda-se tratá-las quando detectadas.

 10. Qual o papel do médico e da família para que os sintomas sejam descobertos o quanto antes?

Quanto ao médico, cabe suspeitar e investigar adequadamente as queixas dos pacientes e/ou dos familiares em relação a alterações na memória ou a outras disfunções cognitivas que podem se relacionar às demências, ou seja, nunca menosprezar os sintomas e sempre investigá-los. A partir da suspeita, o paciente deve ser submetido a testes cognitivos adequados e a exames de neuroimagem e laboratoriais, quando indicados. Em relação à família, é importante saber que problemas de memória em idosos devem ser informados aos médicos e que a ocorrência de alguma demência ou da doença de Alzheimer não deve ser encarada como algo normal com o envelhecimento e que não há nada a se fazer, já que há tratamentos específicos que melhoram a qualidade de vida dos pacientes e dos familiares.