Infectologista: um trabalho por vocação

 

Por Sérgio Cimerman, presidente da Sociedade Brasileira de Infectologia

 

O fato de haver uma sucessão de doenças infectocontagiosas em evidência – extrapolando muros dos hospitais, estampando capas de jornais e virando papo nos almoços de família dos domingos – tem aguçado a percepção que o médico infectologista tem sobre sua responsabilidade junto à população.

AIDS, Gripe, Dengue, Zika Vírus, Chikungunya, Hepatites Virais, Febre Amarela, Ebola, Super bactérias, Caxumba, Meningites.  O leque de doenças é imenso e não é por acaso que a infectologia tem estado nas principais manchetes diariamente.  De especialistas historicamente discretos, atuando nos bastidores, nos corredores e consultórios, os infectologistas passaram a protagonizar e, muitas vezes a cena da saúde pública.

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A história da infectologia é muito peculiar, rica de nuances socioculturais e, em certos aspectos, até um pouco missionária. Embora tenha atravessado mais de um século em sua fase embrionária, durante epidemias como as de varíola e febre amarela (fim do século 19 e início do século 20) ou a de meningite nos anos 70, a infectologia nasceria cheia de contribuições a dar à saúde do Brasil. Quando foi reconhecida como especialidade da medicina, nos anos 80, a infectologia estava prestes a ganhar espaço desbravando o então desconhecido vírus HIV.

A AIDS teve seus oito primeiros casos registrados em 1982, em São Paulo. O surgimento da doença pode ser encarado como um divisor de águas para a medicina. Ao mesmo tempo em que assombrou uma enorme gama de profissionais de saúde, a doença também despertou o interesse de toda uma geração de infectologistas.

As formas de transmissão ainda eram uma incógnita. Parte dos profissionais de saúde, não sem razão, tinham medo de atender os pacientes que quase sempre chegavam com os sintomas da nova doença já avançados. Enquanto isso, outros tantos profissionais e, especialmente, os infectologistas, se enchiam de coragem e obstinação.

Desde então, e hoje ainda mais, o infectologista tem aprendido a lidar diariamente com a grande expectativa da sociedade em cima do seu trabalho e com a necessidade de respostas. Mais do que isso, a cada nova doença, a cada novo surto, é no infectologista que a população deposita toda sua confiança para aprender a distinguir o que acontece e qual a melhor forma de agir.

O infectologista mais atento inevitavelmente sente-se grato pela confiança recebida da sociedade e absorve isso como um estímulo e encorajamento a estar sempre encabeçando o enfrentamento de tudo o que ainda é desconhecido quando falamos de doenças causadas por vírus, bactérias e outros micro-organismos.

Resta ainda ao médico desta especialidade um desejo enorme de contribuir para a ciência e a medicina, uma ânsia de continuar lutando por preservar vidas também e a vontade de inspirar mais e mais gerações de médicos infectologistas, pois este necessariamente é um trabalho por vocação.